10/17/2006

Brasilidades




Brasilidade é um jeito que só tem o nosso povo. Oferece a casa, faz um churrasco, uma farofa, dá logo beijo no coração, abraça, cheira, aperta e diz eu amooooo, ou eu adoooooroooo!
Sempre com um jeito solto e irreverente, nosso povo vai dando nó em pingo d`água.
Cores, muitas cores. Comida com pimenta. Nada de cinzas e marrons. Aqui há uma luz lindíssima, um céu azulzíssimo e mesmo assim, as pessoas usam roupas sempre tão cinzas e escuras que ajudam a dar-lhes um certo ar de tristeza.
Nós não! Nós gostamos dos colares coloridos, dos panos cheios de cor, do papo com o trocador, com o cara do caixa do mercado, do troca-troca com o jornaleiro, do “oi” com o vizinho do lado, que acaba num papo cumprido e no fim tem sempre um "aparece lá em casa", do chope gelado as sextas-feiras e uma tremenda vontade de remexer o corpo quando se ouve um batuque, um chicudum, que não deixa ninguém parado...
Daqui, nesta tarde cinzenta lisboeta, a ouvir a sineta do elevador da Bica, dá vontade de voar até ao Amarelinho na Cinelândia, sentar a olhar o movimento da praça, pedir um chope gelado, comer amendoim torrado, ouvindo um bom sambinha…Claro que se eu fosse agora à Baixa do Chiado, por exemplo, até tomaria uma cerveja gelada, mas de certo não teria nem amendoim, nem uma boa conversa pra passar o tempo.
Tem gente aqui que diz que somos bobos, que nossa alegria é alienada e que nós sorrimos até de desgraça, porque não nos damos conta da realidade. Então pergunto se não é também alienada esta falta de riso, de papo e esse constante silêncio.
Digo que o que parece alienante é o nosso preconceito e nossa total ignorância sobre a beleza que há na alegria do povo brasileiro e no lirismo dos lusitanos. É preciso vê-los com olhos de quem sente a beleza e vibra com a beleza que há nas nossas diferenças. Diferenças que por agora posso exemplificar com a nossa música, comparando duas letras de canções tão cantadas pelo nosso povo. Uma de um carioca da gema, lindo, querido e alegre por natureza (que eu amo de paixão) e a outra, tantas vezes cantada pela inesquecível Amália Rodrigues.

Deixa a Vida me Levar

Zeca Pagodinho
Composição: Serginho Meriti


Eu já passei por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida espero ainda minha vez
confesso que sou de origem pobre
Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
Só posso levantar as mãos pro céu
Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho , lá vou eu
Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu
E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)


Estranha forma de Vida

Letra e música: Alfredo Duarte e Amália Rodrigues

Foi por vontade de Deus

que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
Coração independente,
coração que não comando:vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
Eu não te acompanho mais:para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.