10/16/2006

Oh mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal...









Lisboa, cidade de sonhos, subidas e descidas. Há aqui há um certo ar melancólico que mexe com minha emoção. Gosto de andar pelas ruas a observar e registar detalhes de sua velha e bela arquitectura. Gosto dos cantos quietos e sombrios que encontro no lado antigo da cidade. Gosto de ver as senhoras de preto a caminhar bem devagar pelas ruas, como se estivessem ainda a velar seus mortos. Faz-me boa impressão o olhar roubado dos senhores que gostam de ver uma gaja de saias curtas, mas que são incapazes de dizer-lhes qualquer palavra que pareça deseducada. Gosto do "desculpa lá", do "com licença", do "faz favor" que se ouve a todo momento por onde se passa. Assim vou aprendendo com este povo uma linguagem que não fazia parte do meu português quotidiano. Então fico a pensar: será que a nossa língua é a mesma? Nosso jeito de falar alto, nossa risada, nosso alto astral, as vezes nos condena a olhares atravessados e desconfiados. Não por nos considerarem mal educados ou nos reprovarem, mas vejo que pela pura timidez de um povo que não aprendeu o nosso gingado africano, deixado lá por eles próprios, mas que não souberam esperar para ver que mistura aquilo ia dar. Sim, somos tão diferentes! Somos talvez o que podemos chamar do avesso do avesso.
Mas vamos combinar: o que seria de nós, o que seriam dos portugueses sem esta mistura que gerou os nossos povos?

Canto nesta noite este belo fado, que sempre esteve em mim cravado e agora um tanto mais:

Fado tropical
Chico Buarque - Ruy Guerra
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra (1972-1973)

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimentalTodos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da sífilis, é claro)*Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidarMeu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito

É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta

Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

* trecho original, vetado pela censura na época

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ficou bem bom este blog! Escolheu um visual ótimo, vou copiar! Já, já vc aprende a colocar links aí à direita do texto.

7:28 p.m.  

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