10/19/2006

VERSOS ÍNTIMOS


Vês?!
Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Sómente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo.
Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

A mão que afaga é a mesma que apedreja







Não suporto a discussão interminável sobre os rumos do país, a corrupção que se alastra, o (des) governo Lula, a ganância da direita e a arrogância de grande parte da esquerda. É uma sensação de perdas, só perdas. Só sei que neste segundo turno, o que menos queria ver era um resultado positivo para Alkimin e seu partido. Quem tem boa memória sabe muito bem o que significou o PSDB no poder, a entrega das nossas estatais, as privatizações, o sucateamento dos serviços públicos, o avanço do projecto neoliberal, o abismo das desigualdades, da fome, da pobreza, do desemprego, dos meninos nas ruas das grandes cidades, a insegurança...
Apesar disso, o povo botou a maior fé! Foi bonita a festa, pá!
Lembro até hoje da alegria na Cinelândia! Da esperança à ilusão, do medo à decepção. E para aqueles que não conheciam o que realmente estava por trás daquelas bandeiras e das lágrimas que muita gente derramou, foi um chute no traseiro.

E agora José? A festa acabou?

Não, ainda não! Ainda responsabilizam nosso povo a decidir entre o "menos pior". É dureza pura, minha gente! Mas o povão tá lá firme e forte. Vai obedecer civilmente a ordem da falácia eleitoreira. Vai direitinho apertar o botãozinho da máquina. Aperta o botão, minha gente! Aperta o 13, pois pelo menos dele a gente vai poder cobrar. Chega na hora ele chora e nós também.

Obediência, obediência, se me faz o favor!
Che e toda gente teria vergonha do escândalo da cueca, das maletas cheia grana pro mensalão...Dinheiro suado do nosso povo. Mas vamos combinar: não tenho paciência para ouvir essa história de que este foi "o governo mais corrupto do Brasil". Fala sério!? Acho que precisamos todos tomar uns comprimidinhos de memoriol pra ver se desanuvia a nossa memória histórica...

Só muita reza de mamãe Lurdes!

Desta vez tô bem longe. Não vou às urnas. Decidi não cadastrar meu título por cá. Posso muito bem justificar. Cómodo, né? Mesmo assim desejo muito que o povo brasileiro possa dar um NÃO bem redondo à mesma direita que um dia torturou, matou, calou a nossa voz e tentou apagar de nossas memórias o que significaram os mais de 20 anos de ditadura. Queremos, pois, apesar de toda esta "esperança" fugaz poder novamente cantar:

Pequeña Serenata Diurna

Silvio Rodriguez

Vivo en un país libre

cual solamente puede ser libre

en esta tierra, en este instante

y soy feliz porque soy gigante...

... Soy feliz, soy un hombre feliz,

y quiero que me perdonen

por este día los muertos de mi felicidad.

Fotos: Valéria Cristina, Fasubra, JB e jornal da Cut

10/18/2006

Leituras para o infinito




Estas fotos são de uma obra genial, que me deixou completamente estarrecida pela criatividade, originalidade e pela mensagem que passa a respeito da infinita viagem que os livros podem nos proporcionar. Está exposta no Hall da Fundação Calouste Gulbenkian e é de autoria do artista MATEJ KRÉN, da Eslováquia. Trata-se de uma obra que nos convida a entrar num incrível infinito imaginário. Concebida como um espaço hexagonal, tem duas entradas definidas por espelhos no piso e no tecto, que podem criar uma certa sensação de vertigem de queda, ou um certo pânico da desorientação espacial, característicos de um infinito imaginário. Fiquei completamente deslumbrada com aquela desorientação e resolvi clicar a obra. Vale ir ver esta bela obra de pertinho!

10/17/2006

Viva o povo brasileiro!





Fotos: Valéria Cristina Salvador/Bahia 2005

Brasilidades




Brasilidade é um jeito que só tem o nosso povo. Oferece a casa, faz um churrasco, uma farofa, dá logo beijo no coração, abraça, cheira, aperta e diz eu amooooo, ou eu adoooooroooo!
Sempre com um jeito solto e irreverente, nosso povo vai dando nó em pingo d`água.
Cores, muitas cores. Comida com pimenta. Nada de cinzas e marrons. Aqui há uma luz lindíssima, um céu azulzíssimo e mesmo assim, as pessoas usam roupas sempre tão cinzas e escuras que ajudam a dar-lhes um certo ar de tristeza.
Nós não! Nós gostamos dos colares coloridos, dos panos cheios de cor, do papo com o trocador, com o cara do caixa do mercado, do troca-troca com o jornaleiro, do “oi” com o vizinho do lado, que acaba num papo cumprido e no fim tem sempre um "aparece lá em casa", do chope gelado as sextas-feiras e uma tremenda vontade de remexer o corpo quando se ouve um batuque, um chicudum, que não deixa ninguém parado...
Daqui, nesta tarde cinzenta lisboeta, a ouvir a sineta do elevador da Bica, dá vontade de voar até ao Amarelinho na Cinelândia, sentar a olhar o movimento da praça, pedir um chope gelado, comer amendoim torrado, ouvindo um bom sambinha…Claro que se eu fosse agora à Baixa do Chiado, por exemplo, até tomaria uma cerveja gelada, mas de certo não teria nem amendoim, nem uma boa conversa pra passar o tempo.
Tem gente aqui que diz que somos bobos, que nossa alegria é alienada e que nós sorrimos até de desgraça, porque não nos damos conta da realidade. Então pergunto se não é também alienada esta falta de riso, de papo e esse constante silêncio.
Digo que o que parece alienante é o nosso preconceito e nossa total ignorância sobre a beleza que há na alegria do povo brasileiro e no lirismo dos lusitanos. É preciso vê-los com olhos de quem sente a beleza e vibra com a beleza que há nas nossas diferenças. Diferenças que por agora posso exemplificar com a nossa música, comparando duas letras de canções tão cantadas pelo nosso povo. Uma de um carioca da gema, lindo, querido e alegre por natureza (que eu amo de paixão) e a outra, tantas vezes cantada pela inesquecível Amália Rodrigues.

Deixa a Vida me Levar

Zeca Pagodinho
Composição: Serginho Meriti


Eu já passei por quase tudo nessa vida
Em matéria de guarida espero ainda minha vez
confesso que sou de origem pobre
Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
Só posso levantar as mãos pro céu
Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso
Com o que tenho, vivo
De mansinho , lá vou eu
Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu
E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)
Deixa a vida me levar (vida leva eu)


Estranha forma de Vida

Letra e música: Alfredo Duarte e Amália Rodrigues

Foi por vontade de Deus

que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
Coração independente,
coração que não comando:vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
Eu não te acompanho mais:para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

Pronto, cá está a imagem!


Quando tiver esta idade, quero ter o direito de ler só o que me apetecer. Neste momento sinto-me obrigada a ler um monte de textos académicos que só me fazem confusão e desespero. Parece até TPM que a gente sente um monte de coisas, mas não sabe explicar de onde vêm. Calafrios, tonturas, enjoos, dor de cabeça, tensão, irritabilidade, mudanças no humor, ansiedade, problema de memória e concentração, insónia, enfim, sintomas que misturados, dá uma sensação de desespero e solidão. Faz a gente querer jogar os papéis tudo para o alto e gritar por liberdade!

Acho que todo mundo passa por isto quando está num mestrado. E eu pergunto, por que tem de ser assim? Por que a academia não inventa algo mais prazeroso e alegre de se fazer?Estou naquele momento em que o mestrando tem vontade de não ler, nem escrever mais nada. Então penso como Veríssimo que escreveu assim:

…Mas é claro que todo leitor já tem um direito sagrado e inalienável, que nem sempre sabe que tem e raramente usa. O direito de não ler. Salvo razões patológicas, como o masoquismo, ou o chamado fascínio do abismo, não há nada que obrigue você a ler até o fim o que você sabe que não vai gostar. O pleno exercício do direito de não ler também serve como antídoto para qualquer vocação totalitária. É melhor não ler do que ler tudo e chegar ao fim de uma leitura raivosa pensando em proibir a opinião que desagradou, ou escrever uma carta anônima desaforada ou em difamar o autor e negar o seu direito de irritá-lo. Infelizmente, o que não falta entre leitores são vocações totalitárias… Luis Fernando Verissimo O Globo, 5 de fevereiro, 2004
Não consegui postar a imagem da senhora no Jardim da Estrela. Deu fubá!

A minha, a nossa solidão!

Existe uma certa solidão e melancolia que vejo nas ruas de Lisboa, no semblante das pessoas que vão aos poucos tomando conta tambémde mim. Eu que sempre tive a mania de sorrir e por tão pouco me alegrava, vou deixando que o vento, o clima, o céu, a vagarosidade das pessoas nas ruas, o silêncio sempre tão presente por onde ando, tornar-me uma "lusitana" calada e inconformada.

Não gosto do silêncio quando ele é propositado, ou por não se ter nada a dizer. Também detesto a palavra solta ao vento como se ela pudesse preencher tudo. Tem gente que tem a mania de nunca se calar. Que diabos! Fala, fala, fala...quase me deixa louca. Prefiro, a essa gente, o canto dos pássaros, o miado da Lolita, os gritinhos das crianças que ouço aqui de cima, que vêm de um infantário aqui do Bairro Alto.

Não me apetece escrever trabalhos acadêmicos nesta manhã chuvosa e triste. Só me apetece ler um bom texto, enfiar minha cabeça debaixo das cobertas e esquecer que existe compromisso com a escrita. Ainda por cima escrita de texto académico! Quer coisa mais chata e inútil? Sim, inútil. Alguns não servem para nada! Os meus acho sempre um lixo, embora os faça com o mesmo zelo com que escrevo uma carta de amor. Sim, porque pelas palavras escritas tenho o maior dos respeitos e sempre acho que devemos tratá-las como flor perfumada. Já que inventamos a escrita, devemos ter por ela o cuidado de um criador, de um escultor, o cuidado de quem fotografa uma menina pobre a sorrir. Uma senhora a ler solitária no Jardim da Estrela. Como esta que vi e registei. Senti-me com aquela idade, a ler só, somente só o que realmente me apetece. Ah, quando será que este dia vai chegar?

Manhã nublada no Rio Tejo


Solidão
(Alceu Valença)


A solidão é fera,
a solidão devora
É amiga das horas,
prima, irmã do tempo
E faz nossos relógios caminharem lentos
Causando um descompasso no meu coração Solidão

A solidão dos astros
A solidão da Lua
A solidão da fera
A solidão da noite
A solidão da rua
A solidão é fera.... solidão da rua

10/16/2006

Oh mar salgado, quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal...









Lisboa, cidade de sonhos, subidas e descidas. Há aqui há um certo ar melancólico que mexe com minha emoção. Gosto de andar pelas ruas a observar e registar detalhes de sua velha e bela arquitectura. Gosto dos cantos quietos e sombrios que encontro no lado antigo da cidade. Gosto de ver as senhoras de preto a caminhar bem devagar pelas ruas, como se estivessem ainda a velar seus mortos. Faz-me boa impressão o olhar roubado dos senhores que gostam de ver uma gaja de saias curtas, mas que são incapazes de dizer-lhes qualquer palavra que pareça deseducada. Gosto do "desculpa lá", do "com licença", do "faz favor" que se ouve a todo momento por onde se passa. Assim vou aprendendo com este povo uma linguagem que não fazia parte do meu português quotidiano. Então fico a pensar: será que a nossa língua é a mesma? Nosso jeito de falar alto, nossa risada, nosso alto astral, as vezes nos condena a olhares atravessados e desconfiados. Não por nos considerarem mal educados ou nos reprovarem, mas vejo que pela pura timidez de um povo que não aprendeu o nosso gingado africano, deixado lá por eles próprios, mas que não souberam esperar para ver que mistura aquilo ia dar. Sim, somos tão diferentes! Somos talvez o que podemos chamar do avesso do avesso.
Mas vamos combinar: o que seria de nós, o que seriam dos portugueses sem esta mistura que gerou os nossos povos?

Canto nesta noite este belo fado, que sempre esteve em mim cravado e agora um tanto mais:

Fado tropical
Chico Buarque - Ruy Guerra
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra (1972-1973)

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimentalTodos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da sífilis, é claro)*Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidarMeu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito

É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta

Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta

Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

* trecho original, vetado pela censura na época

10/11/2006

Portugal

Portugal, meu avozinho
(Moraes Moreira e Manuel Bandeira)
Como foi que temperaste,Portugal, meu avozinho,Esse gosto misturadoDe saudade e de carinho?Esse gosto misturadoDe pele branca e trigueira- Gosto de África e de Europa,Que é o da gente brasileira?Gosto de samba e de fado,Portugal, meu avozinho,Ai Portugal que ensinasteAo Brasil o teu carinho!Tu de um lado, e do outro ladoNós... No meio o mar profundo...Mas, por mais fundo que seja,Somos os dois de um só mundoGrande mundo de ternura,Feito de três continentesAi, mundo de Portugal,Gente mãe de tantas gentes!Ai Portugal de Camões,Do bom trigo e do bom vinhoQue nos deste, ai avozinhoEsse gosto misturado,Que é saudade e que é carinho

Finalmente!



Já tenho um blogger!!
Meu professor das TICs ensinou e eu fiz. Agora é mãos a obra. Tenho pela frente muitas páginas, preto e brancos papéis e muitos, muitos assuntos pra reflectir e trocar.